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Etc: Não passarás!, uma breve reflexão sobre a questão C. Tolkien e Peter Jackson

26 de outubro de 2013

Essa célebre frase, dita por um certo mago Gandalf ao Balrog (demônio de chamas) que tentava barrar seu caminho nas Minas de Moria, foi a primeira coisa que me veio à cabeça quando pensei mais profundamente sobre a polêmica que envolve Christopher Tolkien, único herdeiro vivo de J.R.R. Tolkien, e Peter Jackson, diretor da saga cinematográfica O Senhor dos Anéis e, mais recentemente, O Hobbit.

Os fãs mais hardcore da obra de Tolkien certamente já sabem quando tudo isso veio à tona: foi nesta entrevista dada por Christopher ao Le Monde, em 2012, quarenta anos após a morte do pai, em que faz declarações amargas acerca da produção do cineasta. Para ele, Peter Jackson “…destripou o livro, fazendo um filme de ação para jovens de 15 a 25 anos de idade” (opa, velhos também gostam de uma ação boba, Sir!), e também acha que o “nível de comercialização reduz a nada o significado estético e filosófico da obra”.

Não vou ficar do lado de Christopher, tampouco do de Jackson, embora eu consiga compreender com bastante clareza o que o primeiro sente. Para ele, um ex-acadêmico de Oxford, ver a obra do pai metamorfoseada ao gosto dos mais célebres mestres do entretenimento da nossa era deve, no mínimo, ser um espinho no coração. Diversas vezes depois de ter lido a magnum opus (em nível de popularidade, obviamente) do autor, escondi o rosto ao perceber, nos filmes, algumas hollywoodizações exageradas cujo feeling simplesmente não foi concebido por Tolkien.

Daí, tempos depois, com uma ajudinha básica de teorias de tradução na Universidade, me veio a conclusão que deveria ser óbvia para todo mundo: sim, é claro que ali há coisas que Tolkien jamais concebeu ou pensaria em conceber, simplesmente porque aquilo não é um Tolkien. É uma outra obra, de um outro artista que, por escolha (ou azar, como queiram), teve sua base nele. Porém, isso não vai fazer com que se misturem e formem um todo. Tolkien é Tolkien, e Jackson é Jackson. E tem uma boa notícia para Christopher e para todos nós, prefiramos os romances ou os filmes: Nunca, jamais serão a mesma coisa.

Porque, sim, existem aos montes pessoas que ignoram que O Senhor dos Anéis é um título também literário além de cinematográfico, e que se recusam a ler o romance de mesmo título mesmo tendo gostado dos filmes. Mas, e então? O que podemos fazer? Sair na rua distribuindo panfletos de “Você sabia..?”, isso até podemos. Mas obrigá-los a ler a obra e fazê-los descobrir o teor dela, não; até porque, volto a dizer, ela é substancialmente diferente, e não poderia ser de outra forma. Não espanta que haja fãs e defensores ferrenhos dos livros que detestam os filmes, e vice-versa. O mais famoso já lhes apresentei no início do texto…

Uma coisa é certa: o nome de Tolkien cresceu para além da própria obra, e não há mais como retroceder quanto a isso. Os direitos já estão vendidos, pelo próprio Tolkien, cuja motivação mais íntima nunca saberemos. Lamente ou não a esolha seu filho Christopher, ele sabe que a luta no sentido de proteger a “aura” da obra do pai não está funcionando como queria.

P.S.: Tenha Christopher assistido ou não aos filmes, há algo neles que jamais poderia considerar um desserviço à memória da obra do pai, na minha opinião: é a trilha sonora estupenda de Howard Shore. Basta ouvir The Lord of the Rings Symphony, composta de seis movimentos, um para cada livro (como Tolkien chamou cada uma de suas “metades” das três partes do romance, o que denuncia que a obra literária foi a principal inspiração do músico). É uma peça atemporal que já se tornou um clássico do nosso tempo! Confiram:

Espero que tenham sido levados a pensar um pouco nessa questão tão pertinente à cultura lítero-cinematográfica da modernidade com o texto. Fiquem à vontade para opinar, e até a próxima!

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12 Comentários leave one →
  1. 11 de novembro de 2013 20:09

    Jéssica, é uma questão complicada, e acho difícil mesmo tomar lados… Se, a seu modo, Jackson popularizou de forma estrondosa a história do anel, por outro isso não quer dizer que tenha atraído para os livros um público ainda maior – apesar de, na época do lançamento dos filmes, os livros terem voltado às listas de mais vendidos. Acho que são duas coisas diferentes, como você bem disse. Como bom fã de Tolkien, eu senti falta de Tom Bombadil nos filmes, assim como estranhei outros caminhos tomados. Por ter o tamanho e importância que possuem, Jackson deveria ter tomado um bocado mais de cuidado com a trilogia…e digo isso ao mesmo tempo em que não considero seus filmes um completo desserviço. Confuso, não?

    Post sensacional 😉 Dois abraços!

    • 17 de novembro de 2013 20:23

      Obrigada, Luciano!

      Como eu disse, é só não misturarmos as coisas que não iremos sofrer… rs

      Eu acho que daria tranquilamente para ter feito seis filmes em vez de trilogia, um para cada livro da obra. Daria para ter incluído o Bombadil, sim, mas como ele, a meu ver, é um personagem muito filosófico, artístico, talvez não casasse com a proposta de entretenimento do diretor… vai saber!

      Abração e volte sempre! 😉

  2. 29 de outubro de 2013 17:22

    Realmente difícil julgar o mérito literatura vs outras mídias. Sempre haverão adaptações que perderão em conteúdo e riqueza lírica para o livro, sempre. Porém, existem sim expressões que ajudam em muito na divulgação da literatura, como foi o caso de O Senhor dos Anéis e que, por mais que seja criticada pelos fãs, representou muito para o legado do professor Tolkien.

    Ótimo texto, parabéns.

    • 29 de outubro de 2013 18:24

      Sérgio, eu mesma adoro os filmes do Jackson, mesmo que me proporcionem uma experiência bem diferente dos livros, e acho que é essa a ideia mesmo…

      Ou iremos parar no império descrito em Do Rigor da Ciência, do Borges, sobre os mapas tão perfeitos que acabaram não servindo pra coisa alguma rs

      Abraço, e muito obrigada! ;]

  3. 27 de outubro de 2013 13:52

    Oi Jéssica, acho que isso sempre será um dilema. Muito já se disse e todos já sabem que são mídias diferentes, que os filmes são “baseados” , “inspirados”, mas nunca serão cópias fieis dos livros, por que, enfim, não poderiam ser. Mas, confesso, ainda sentir dificuldade quando se trata de um livro que gosto muito (tipo aquele sentimento irracional que acredita que o livro é perfeito e incrível e tudo mais). Isso aconteceu com “As vantagens de ser invisível”, que por sinal é bem fiel, e eu estava sendo apenas chata.
    Acho que entra nessa conta o tempo que nós passamos com livro, o tempo que acompanhamos aqueles personagens e construimos a imagem e voz deles, no filme o ritmo é outro. É como se acompanhássemos a leitura do livro feita pelo diretor. Acho que Peter Jackson fez uma leitura de fã, muito apaixonada e respeitosa, claro que não vai satisfazer a todos, mas essa sempre será a questão. O que é bom 😀
    beijo grande

    • 29 de outubro de 2013 18:13

      Oi, Maira!

      Realmente, entendo completamente seu lado. Às vezes rolam ciúmes básicos das nossas obras amadas, por mais que tentemos ser racionais, somos bichos. rs

      Lembro da revolta que eu senti ao ver o que a MTV fez de O Morro dos Ventos Uivantes há alguns anos, mas hoje só penso mesmo que o azar (e vergonha!) é deles! rs

      Abração!

  4. Diego permalink
    26 de outubro de 2013 18:16

    Claro que ele vai preferir os livros, mas deveria saber que sua obra ganhou muito destaque depois da cinematografia, começando por mim…

    • 26 de outubro de 2013 18:45

      É verdade, Diego, é só olhar pra quanto as vendas aumentaram pra constatar isso…

      Eu mesma conheci a obra através do cinema, me interessei e daí li o romance.

      Obrigada pela sua contribuição! ;]

  5. 26 de outubro de 2013 17:45

    Oi Jéssica, gostei bastante do texto! Concordo com você: a trilha sonora da trilogia jamais deverá ser considerado um desserviço à memória do professor Tolkien. Eu tenho uma certa inquietação para com pessoas que tendem a subestimar as demais… achei bastante infeliz a declaração de Christopher ao dizer que os filmes se tornaram uma obra para pessoas de 15 a 25 anos… mas ora bolas, os livros não foram criados para pessoas dessa idade? (inclusive, os primeiros ensaios de mestre J.R.R relativa a criação se baseou na criação de histórias para seus próprios filhos)… Isso me lembra, guardadas as devidas proporções, às declarações dadas por Alan Moore ao mercado de HQs atual… enfim, Lord of the Rings merece ser guardado para a posteridade, tanto em filme quanto em livro ^^

    • 26 de outubro de 2013 18:42

      É, Fabrício; e olha que ele é extremamente inteligente, acho que a raiva dele é tanta que ele acaba deixando os instintos agirem um pouco na hora de dar uma declaração assim, não pensa muito rs

      E essa trilha, hein? Quanto amor! Minha preferida é Gollum’s Song (a instrumental mesmo, embora também goste da cantada). Acho que ela casa perfeitamente com esse sentido de peso irrenunciável do anel pro Sméagol, com a desgraça perpétua do personagem.

      Sejam bem-vindo, e volte sempre. Abraço.

  6. Andre Gomes permalink
    26 de outubro de 2013 17:44

    Ótima pegada! Desisti, há muito tempo, de tentar resgatar em um filme ou série televisiva a experiência narrativa que tenha tido em um livro ou quadrinho. Em algum momento, como ocorreu contigo, passamos a ver que são mídias distintas e que resultam em trabalhos no máximo paralelos mas (até por isso mesmo), nunca cruzando um a fronteira do outro. Leia o livro, veja o filme e saia disso com duas experiências distintas, que só o fazem mais rico. Em relação ao Senhor dos Anéis em si, há adequações ali que me incomodam: cito como exemplo maior o Gimli, que virou alívio cômico da história e que no livro é tão denso e soberbo. Mas nada disso compromete, já que as páginas dos livros em minha estante nem foram apagadas e nem alteradas pela minha leitura. Parabéns pelo texto,

    • 26 de outubro de 2013 18:29

      “Leia o livro, veja o filme e saia disso com duas experiências distintas”

      Eu acho que essa é mesmo a forma mais sensata de se pensar, André. Poupa bastante sofrimento, e demonstra maturidade.

      Leio o livro primeiro, por privilegiar a experiência de leitura… mas aí é questão de preferência.

      Obrigada, abraço e volte sempre!

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