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Resenha: Gen Pés Descalços v.1 [mangá]

23 de dezembro de 2012

Autor: Keiji Nakazawa
Tradutora: Drik Sada
Letrista: Evandro Pimentel
Introdução: Art Spiegelman
Anos das publicações originais (10 volumes): 1973-86
Língua original: Japonês
Título original:
Hadashi no Gen
Editora: Conrad
ISBN: 9788576164470
280 páginas

Avaliação:

Obs.: Somente hoje, dia 25 de dezembro, dois dias depois da publicação desta resenha, é que foi noticiada a morte de Nakazawa por sua família, que aconteceu na última quarta, dia 19, em Hiroshima. Nada mais justo do que ter prestado aqui minha singela homenagem a este lendário mangaká e sua belíssima obra, que viveu os horrores da bomba atômica na vida e deu forma a eles na arte, deixando para aqueles que ainda não a conhecem minhas impressões e recomendação.

A primeira vez que ouvi falar de Gen, e disso eu me lembro muito bem, foi quando cursava o terceiro ano do ensino médio. Num livro de História, num capítulo sobre o Japão na Segunda Guerra, lá estava uma capa do mangá, junto com uma notinha de indicação de leitura. Infelizmente, minha voracidade artístico-literária era quase nula: não busquei a obra imediatamente. Só agora, há alguns meses, ao saber do relançamento da série por completo (assim esperamos, Dona Conrad!), em nova tradução, é que decidi lê-la. O resultado? O primeiro volume de Gen foi uma das minhas melhores leituras do ano.

Clássico absoluto do mangá, Gen Pés Descalços é uma história autobiográfica que acompanha a jornada do herói-garoto Gen Nakaoka e de sua família ao longo dos tão dolorosos caminhos diários do fim da Segunda Guerra no Japão, mais especificamente em Hiroshima. O ápice do primeiro volume, O nascimento de Gen, o trigo verde*, é o lançamento da bomba atômica de urânio Little Boy pelos Estados Unidos sobre a cidade em agosto de 1945, causando uma explosão devastadora e transformando tudo ao seu alcance em peças de um inferno dantesco.

Com seu traço simples e despretensioso, muitas vezes classificado como “feio”, Nakazawa nos tranforma em íntimos da família Nakaoka, especialmente de Gen, que ainda é uma criança tentando entender todo o sofrimento pelo qual está passando. Ainda assim, ele se supera a cada dia com o intuito amenizar a situação da família e das pessoas que cruzam seu caminho.

Toda a história é um desenrolar infindável (quase sempre torturante!) de dores e humilhações suportadas todos os dias pelos honestos Nakaoka: passam fome por causa do racionamento de comida e são violentamente repudiados por toda a vizinhança e pelo Estado porque o Sr. Nakaoka, patriarca, é um pacifista (ser anti-guerra, naquele tempo, significava para a maioria ser anti-patriota, alcunha usada para desprezar aqueles que eram contra os conflitos pelos que acreditavam no poder da guerra como libertação do império). Além disso, há a ameaça constante dos ataques aéreos americanos. Lágrimas nos olhos, suor na pele e interjeições de dor são uma constante na arte de Gen.

Durante os dias de dezembro que passei com o primeiro volume de Gen, pouca coisa mais me importava além de contemplar o sofrimento dos personagens e partilhar disso até onde era possível para alguém que nunca viveu a guerra. Foi uma leitura realmente prazerosa e, em dado momento, até me sentindo culpada, parei para pensar no fato de algo tão triste me prender de forma tão intensa. Foi Art Spiegelman, autor de Maus, que me esclareceu isso em sua introdução. Ele diz: “…a exposição aos parâmetros de referência de outra cultura, e a identificação e a simpatia que os leitores desenvolvem com os protagonistas e a própria natureza da narrativa são prazeres intrínsecos”.

Num momento em que estou tão estreitamente ligada à história envolvida com os lançamentos das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki (vou apresentar um seminário sobre o tema na universidade em janeiro), Gen me veio como um presente, para me contar de forma sensível mas não menos aterrorizante sobre desastres em que a ciência e o poder imperaram sobre a humanidade de uma forma nunca antes imaginada, e que não podemos esquecer para que não se repita.

P.S. (25/12): Que o mestre Nakazawa vá em paz. A missão dele foi e continuará sendo cumprida.

* O simbolismo do trigo é algo muito poético em Gen. O sentido dele, deixo para os mais curiosos conhecerem por si.

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5 Comentários leave one →
  1. 28 de dezembro de 2012 16:33

    Jéssica, este está em minha lista de desejos há muito tempo, desde a edição maquiada lançada há alguns anos. Agora, com esta quero muito ler, os mangás tem uma capacidade ímpar de retratar emoções, ler sobre Hiroshima será, espero, uma experiência única.

    E também torço para que a Conrad leve o projeto até o fim. As edições dela são sempre caprichadas, mas às vezes deixa o leitor na mão pelo meio do caminho.

    • 29 de dezembro de 2012 10:20

      Luciano, faz um tempo que eu desejava ler Gen também. Não esperava que fosse ser isso tudo, mesmo. Falavam do traço e tal… Tudo besteira. É um estilo. Não diminui em nada o efeito catastrófico dele.

      Esse eu comprei aqui em Fortaleza esse ano, na Bienal Internacional do Livro do Ceará, estande da Comix. Mas eles não tinham o volume 2, acredita? Resultado: estou aqui em casa roendo os dedos esperando que o meu chegue, porque não posso pular pro terceiro.

      É, eu sei que a Conrad tem tido uma histórico bem amargo com as séries que decide publicar… mas Gen tem poucos números, e espero sinceramente que vá até o fim. Já estou quase na metade, e se não terminar de lê-la em 2013, vai ser o maior buraco de leitura do ano. Vamos torcer.

  2. bi001 permalink
    24 de dezembro de 2012 11:56

    Quanto sentimento! Quanta paixão ao falar de uma leitura! Espero que os próximos volumes sejam ainda melhores e boa sorte no seminário!

    • 24 de dezembro de 2012 12:38

      Realmente, Bi, a leitura de Gen me marcou mesmo. Já comprei o v.2, estou esperando um pouquinho para continuar a leitura.

      Obrigada pelos votos, planejo fazer um seminário especial. Se tirar fotos, mostro como foi. ;]

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