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Etc: o efeito ‘movie tie-in’

2 de janeiro de 2012

Se um romance é um clássico atemporal ou um best seller famoso, é quase certo que deu ou dará origem a um filme. Por um lado, é fascinante ver nossos romances preferidos ganharem forma, movimento e trilha sonora na telona; por outro, estaremos sendo um pouco injustos ao assistirmos um filme com roteiro adaptado sem ter lido a obra original, não acham? É o que eu procuro evitar sempre, embora às vezes não sejamos avisados de que aquele filme que tanto queríamos ver e que finalmente teve sua estreia era baseado em literatura.

O fato é que o século XX e suas produções cinematográficas baseadas em romances, independentemente da qualidade, trouxeram às edições recentes algo que me desagrada muito: o efeito movie tie-in. Não entendeu? É muito simples. Sabe aquele romance que tem uma fotografia de uma cena do filme de mesmo nome (ou não!) como capa? Pronto, a principal consequência está explicada. Vamos a alguns exemplos:

Afinal, por que ter um livro com “capa de filme” seria tão ruim assim? Bom, segundo minha concepção de literatura, isso é um empobrecimento, se não para a obra, para a experiência de quem lê. Tive alguns livros do tipo, e não costumava ligar muito para isso até começar a estudar semiótica no curso de Letras e refletir sobre os adensamentos de sentido.

Quanto mais concretas forem as informações sobre certa narrativa, mais densos os sentidos. Parece complicado, mas não é; é exatamente esse o objetivo quando se constroem filmes baseados em romances: fazer com que Elizabeth Bennet e Aragorn e Sayuri cheguem a nossos olhos como fotografias vivas: nítidos, completos. Não há nenhuma chance para que possamos desenhá-los (ou não) a nosso gosto, com nossa imaginação. Não vejo nenhum crime nisso, porém.

Mas por que nem sempre aceitamos ver nossos amados personagens tão concretizados (quase impostos!) no cinema? Aqui voltamos ao ponto de início: porque a literatura, e o próprio ato de ler, nos dá essa liberdade de imaginar. É como se, lendo, pintássemos na mente quadros impressionistas: diluídos, imprecisos. Costumo dizer que quem gosta de ler também gosta, invariavelmente, de estar só; porque aquilo que “vemos” ao percorrermos os parágrafos é só nosso. E é justamente essa liberdade de construção, esse caráter incorpóreo da literatura, que tais capas ferem.

Ainda há outra consequência negativa do efeito movie tie-in, e essa não chega a me incomodar tanto quanto as capas: os famosos selinhos indicando, geralmente de maneira apelativa, que a obra para qual nossa atenção se volta é “o livro que inspirou o filme”. São sempre deselegantes e, quase sempre, desnecessários (não para o marketing, é óbvio!). É como se Elizabeth II, em 2006, usasse um button barato em seu vestido: “Now a major picture!”

Se eu entendo que o efeito movie tie-in é uma consequência do mercado literário ter se fundido ao cinematográfico? Sim, perfeitamente. Mas, a meu ver, o romance deveria merecer destaque enquanto obra literária, e não por ter dado origem a uma produção de cinema ou TV, por mais estupenda que ela seja.

A literatura pode servir de inspiração para filmes ou seriados? Obviamente. Mas que os pôsteres ficassem às portas dos cinemas somente. Um bom livro jamais deveria precisar de capas cinematográficas saltando aos nossos olhos nas prateleiras.

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8 Comentários leave one →
  1. Amilton permalink
    12 de maio de 2016 18:39

    Saber que os filmes que eu assistia eram baseados em livros me motivou a ler ao ponto de parar de ver os filmes e ficar só com os livros. Nunca me incomodei coma influência dos filmes, até gostava de comparar e descobrir o que tinha nos livros e os filmes deixavam de passar. Pra mim um livro sempre vai ter mais pra ensinar do que um filme.

    • 3 de junho de 2016 17:48

      Bacana, Amilton! Mas aqui meu enfoque foi acerca das capas mesmo, da parte estética do livro que acaba sendo mera cópia da produção do cinema…

  2. 7 de janeiro de 2012 22:01

    Jéssica, eu como também estudante de Letras e também me chamando Jéssica (hahaha) concordo contigo. Ler é um ato tão lindo, solitário e de amor, que a maiorias das capas já torna nossa imaginação limitada. Começamos a imaginar as cenas da narrativa com a cara dos filmes, né? Adorei o post, ainda não tinha lido sobre o assunto.

    =*

    • 8 de janeiro de 2012 10:31

      Oi, Jéssica (ou Gabrielle?! xD)!

      É verdade. E quando vemos um filme antes de ler a obra, é bem pior. Mais uma pra aumentar o time contra a ditadura das imagens cinematográficas nas capas dos livros…!

      Obrigada pelo comentário e volte quando quiser! ;]

  3. Bruno Silva permalink
    2 de janeiro de 2012 14:05

    Particularmente eu gosto de algumas capas de romances com imagens do filme, como Memórias de uma Gueixa e Nárnia. Porém, concordo absolutamente com você Jéssica. As imagens que eu tinha dos personagens de Nárnia antes de ver os filmes será para sempre sobrepujada por suas “partes cinematográficas”. Cada livro que lemos é único justamente por imaginarmos nossos personagens à nossa maneira. Mesmo que leiamos a descrição do autor, teremos um personagem diferente do criado pelo próprio autor. Apesar de achar uma sacada legal, uma estratégia talvez para chamar a atenção do leitor ao livro, ainda acho que o livro ideal é aquele sem gravuras, sem desenhos, sem ilustrações na capa. Logo depois de ler Ensaio Sobre a Cegueira, de Saramago, soube do filme que ilustra a história e decidi não assistir. Ainda hoje lembro de passagens do livro e penso que se tivesse assistido ao filme toda a minha experiência teria sido maculada. Sou a favor de não se assistir um filme baseado em um livro antes de se ter lido tal obra.

    • 2 de janeiro de 2012 17:50

      Bruno, concordo com você quando diz que os livros que inspiraram filmes devem ser lidos antes de vermos os mesmos, até pra que nossa capacidade crítica seja desenvolvida e não fiquemos com uma ideia errônea ou limitada sobre a obra.

      Quantos às ilustrações e os desenhos, estejam na capa ou nas páginas, não acho que sejam um erro, já que o grau de concretude de um desenho é infinitamente menor do que o de uma fotografia. Essas sim, também me incomodam bastante quando estão nas capas.

      E não acho que seja necessário ser tão radical a ponto de negar ao cinema sua vez, rapaz! Ver os filmes é uma experiência muito interessante, gostemos deles ou não. Lembro, por exemplo, que assisti ao filme de Joe Wright somente depois de ler Orgulho e Preconceito. Não só adorei o filme como me divertia em analisar as diferenças entre cenários, diálogos etc, até tentando entender os porquês. O problema é quando querem misturar as duas coisas, impor as imagens do cinema à experiência literária. Isso sim é ruim.

      Ensaio sobre a Cegueira é um excelente filme. Recomendaria, ainda mais pra você, que leu a obra.

      Obrigada pelo comentário caprichado e volte sempre! ;]

      • Bruno' permalink
        12 de janeiro de 2012 13:33

        Agora você me fez querer ver o fime mesmo ^,^. E o blog está muito show mesmo !

        Parabéns

      • 12 de janeiro de 2012 20:47

        Obrigada, fica à vontade! ;]

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